Médico paranaense conduz estudo para comparar os resultados das duas técnicas; segundo procedimento, realizado no ex-atleta Romário para controle do diabetes, não é aprovado pelo CFM.

Alcides Branco Filho, cirurgião do aparelho digestivo: 80 pacientes serão operados em Curitiba nas próximas semanas

Na semana que passou, uma polêmica balança se desenhou no campo da medicina. De um lado, especialistas defendem a cirurgia de “gastrectomia vertical com interposição ileal (GVII)” para o controle do diabetes tipo 2, independente do peso do paciente; de outro, o Conselho Federal de Medicina (CFM) que reconhece o procedimento somente em caráter experimental e após aprovação de um comitê de ética.

No meio dessa discussão estão cerca de 14 milhões de brasileiros portadores de diabetes, interessados no melhor tratamento para a doença. Esse debate ganhou projeção nos últimos dias, quando o ex-jogador de futebol e senador Romário (PSB-RJ) apareceu nas redes sociais visivelmente mais magro. Ele revelou ter se submetido à cirurgia de interposição ileal com o médico goiano Áureo Ludovico de Paula, que já havia travado um conflito com a Justiça em 2009, ao realizar técnica semelhante no apresentador Faustão.

O princípio básico da cirurgia metabólica, segundo De Paula, é a transposição do íleo, que é a parte final do intestino delgado, entre o duodeno e o jejuno. Com isso, o alimento chega mais rapidamente ao íleo, estimulando a produção do hormônio GLP-1 que estimula a produção de insulina. Essa modalidade atenderia por exemplo, pacientes diabéticos tipo2, independente do Índice de Massa Corporal (IMC).

Na cirurgia bypass gástrico, modalidade tradicional que corresponde a 75% das operações feitas no país, parte do estômago é grampeada, o que evita grande ingestão de alimentos e aumenta os hormônios da saciedade. Sua indicação é para pacientes com Índice de Massa Corporal (IMC) maior ou igual a 40 ou IMC maior ou igual a 35, quando houver estados mórbidos associados, como hipertensão, diabetes de difícil controle, limitações ortopédicos, apneia do sono, entre outros.

Em busca de alguns esclarecimentos, a FOLHA consultou especialistas, como o cirurgião paranaense do aparelho digestivo do Hospital Marcelino Champagnat, Alcides Branco Filho. Há dois anos e meio ele está à frente de um estudo, que considera inédito no país por ter a aprovação de todos os comitês de ética. Com o processo documental finalizado, 80 pacientes serão operados em Curitiba nas próximas semanas.

Metade será submetida à técnica de interposição ileal e a outra ao bypass gástrico ou cirurgia de Fobi-Capella. “É um trabalho prospectivo, randomizado, em pacientes que não são obesos mórbidos, isto é, com IMC abaixo de 35 kg/m2. O objetivo é comparar as duas técnicas, mas o foco maior é entender que existem sim, resultados positivos na interposição ileal”, aponta.

Com experiência há mais de 20 anos em cirurgias do aparelho digestivo, Branco comenta que sempre se interessou pelo procedimento disseminado por De Paula. “Ela (técnica) é mais difícil de ser realizada, mas os resultados são melhores”, defende.

Branco cita que o estudo é semelhante à pesquisa que vem sendo realizada pelo Hospital Sírio Libanês. Mais de 50 pessoas já participaram do projeto que deverá ser concluído neste ano, avaliando três linhas de tratamento: clínico, cirúrgico bypass gástrico e cirúrgico transposição ileal com sleeve (gastrectomia vertical).

“Conseguimos controlar o diabetes em  85% dos casos”

 

O cirurgião Áureo Ludovico de Paula explica que tem realizado a cirurgia de gastrectomia vertical com interposição ileal (GVII) por uma decisão da Justiça, contrária ao posicionamento do Conselho Federal de Medicina (CFM). Segundo ele, a decisão ocorreu juntamente com a opinião de especialistas que avaliaram o caso.

“Para mim, o grande conflito é pelo impacto dos resultados. Com essa cirurgia conseguimos controlar o diabetes em 85% a 90% dos casos, assim como o colesterol elevado, hipertensão, além da redução de peso”, ressalta ele, completando que a modalidade cirúrgica existe desde 1928, com publicação na revista “Annals of Surgery”. Para obesidade, ela é empregada desde 1985.

Em entrevista na televisão, o senador Romário declarou que o objetivo de ter se submetido à intervenção era controlar o diabetes, pois sua glicemia estava perto de 400 mg/dl, sendo que a recomendação é manter um nível abaixo de 100.

A assessoria do CFM informou que a técnica pode ser empregada no tratamento de casos de obesidade mórbida e não para o tratamento de doenças metabólicas. “Com essa finalidade, ela pode ser realizada apenas em caráter experimental”, conforme resolução CFM nº 2.131/2015.

Entre as justificativas estão a dificuldade técnica para a realização da cirurgia e o desconhecimento dos efeitos da mesma nos pacientes a longo prazo. Ainda de acordo com o órgão, as técnicas consideradas experimentais ou em investigação deverão ser realizadas sob protocolo de pesquisa, sob supervisão de Comissões de Ética (CEP) e/ou Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).

Questionado sobre o caráter experimental, De Paula responde que a Câmara Técnica de Cirurgia Bariátrica e Metabólica do CFM aprovou a GVII em 2010 como não experimental e salienta que o procedimento já é realizado por ele há mais de 10 anos, com estudos científicos disponíveis na internet. “Ela não é experimental”, completa.

O cirurgião ainda comenta que a interposição ileal, “assim como toda cirurgia, tem os riscos do próprio procedimento e os riscos inerentes da própria doença.” De Paula afirma que já houve mortes e explica que em pacientes com o IMC abaixo de 35, a taxa de mortalidade é de 0,4%. “Ninguém está falando de uma cirurgia que não envolve riscos, mas ela é tão segura quanto as cirurgias tradicionais para obesidade”, completa. (M.O.)

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